quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Uma Questão de Opinião



Qual é a abrangência do termo "terrorismo"? Talvez, simplificadamente, a expressão signifique impor a vontade por meio da violência e do terror. Sendo assim, o Tio Sam deveria voltar sua política do Big Stick não só para o oriente, mas também para sua sala de estar, a Europa. Mas parece que não é interessante combater nossos amigos das suásticas e vestuários exóticos - para não dizer ridículos. O que há décadas vem perpetuando-se no ocidente, sempre pouco difundido pela mídia - excetuando os casos hollywoodianos-, são os sentimentos xenófobo, racista, homofóbico e todos os outros que inspirem virilidade . E quando digo ocidente, quero dizer todo o ocidente. O Brasil também não está de fora; quem não se lembra dos gays espancados por "skinheads" em Curitiba?

Não se pode dizer que o combate a esses vândalos carecas seja uma questão de segurança nacional, afinal esses bebezarrões rebeldes precisam agrupar-se em três para dar conta de uma mulher grávida e indefesa. Não faço ideia de quantos seriam necessários para executar a mesma façanha com uma nação... O fato é que talvez, apesar de sujar a imagem de um Estado soberano, manter alguns desses gentlemens como anfitriões seja o melhor aviso da direita europeia aos latino-americanos, africanos, europeus orientais e a toda a corja desses quase indigentes que insistem em parasitear as riquezas dos países desenvolvidos. Além do quê, desde quando a morte de um brasileiro é capaz de minar a reputação de um país? Se assim fosse, o Brasil seria o primeiro país a ser assolado pela má fama, haja vista que aqui nossos anfitriões - os traficantes - não brincam de escrever mensagens infantis; eles matam mesmo. E muitos brasileiros morrem nas mãos desses agiotas do governo.

O termo skinhead pode abarcar muitas personalidades; qualquer um com a "cabeça-pelada"- ou seja lá como for que eles preferem ser chamados - pode ser engajado nessa contracultura. Já se foi a moda punk, a hipiie, a grunge, a underground. Agora o barato do momento é a moda skinhead. A vantagem dessa moda, em relação as outras, é que nessa, não se precisa saber ler; não há uma filosofia específica; você não precisa saber nada! Talvez apenas que se é um skinhead; mas se não saber, é só sair no soco que tudo está resolvido. Eis o melhor cartão de visita de um skinhead: a porrada.

Os skinheads mais cultos se autodenominam- com o auxílio da mídia - de neonazistas. Momento cultura: nem todo skinhead é um neonazista; existem muitos skinheads negros, judeus e, até -quem sabe - gays - porque ficar no meio de tantos homens soa suspeito. Os skinheads fazem parte de um movimento igual a qualquer outro - mais idiota, é verdade. Um exemplo familiar de skinhead são os Hooligans, tão falados em Copas passadas. Provavelmente, esses rapazes, os quais seriam algo muito semelhante aos nossos tão típicos pit boys arruaceiros, amantes do Jiu-Jitsu, nunca leram Mein Kampf - mas diferente dos nossos pit boys, eles com certeza sabem ler - a educação europeia é invejável- se não leem é porque tem socos mais importantes para dar.

Realmente, o acontecimento trágico que fez a brasileira Paula Oliveira, residente de Zurique, e que estava grávida de três meses de gêmeos, sofrer um aborto forçado foi um fato lastimável e imperdoável. Contudo, as autoridades não podem esperar que todos vejam esse fato com surpresa. Qual a dúvida quanto ao que sucede quando três homens carecas, e em que em pelo menos um deles vê-se nitidamente uma suástica tatuada na cabeça, andam de preto, à noite, em uma estação de trem germânica, local onde podem entrecruzar-se pessoas de várias etnias e nacionalidades? A verdade é que a Europa enfrenta problemas graves de identidade, que não são de agora, talvez dado ao fato de sua formação conturbada.

É complicado para um europeu admitir que entre seus conterrâneos existam aqueles que conclamam o nazismo e extravagâncias afins, marcas culturais que crucificam os nossos ex-bárbaros. Mas isso faz parte da cultura; não se deve renegar, mas sim trabalhar para alterar, não simplesmente abafar, como há muito é feito, talvez, principalmente, por pressão da opinião pública mundial que condena indistintamente os acontecimentos passados. Manter o nazismo e outras orientações políticas marginalizadas, faz com que elas sirvam de alimento contra o tédio de play-boys bombados sem nada para fazer, mas que mesmo assim apresentam mais lastro intelectual do que os nossos play-boys bombados. Enquanto lá, forjadamente - ou não, vai saber- os valentões lutam contra a dominação estrangeira dos postos de trabalho e a insegurança representada por imigrantes famintos, os nossos brigam por loiras peitudas e por atenção do público em geral. Lá, o problema é - teoricamente- político; aqui, é crítico: o problema é intelectual! Lá uma reforma política, provavelmente, resolveria. E aqui, o que há a se fazer?

O brasileiro é muito sentimental quando o assunto é pop. Uma bala perdida no Rio é notícia de populacho sensacionalista; em Londres, é manchete renomada de impacto. Não diminuo a dor de nenhum, nem de outro; apenas saliento que a morte é morte em qualquer lugar. O que acontece lá, acontece aqui. E se a atenção dada ao que acontece lá fosse dada ao que acontece aqui, possivelmente, lá, não aconteceria nada. Ou os norte-americanos são alvos de skinheads ou da Scotland Yard?

O brasileiro precisa conquistar o respeito internacional. O que lá eles têm em demasia, e os faz agir como donos incontestes da razão, aqui carecemos. Lá, eles repudiam - em excesso, é verdade- aqueles que tentam se apoderar de suas míseras porções de terra e oportunidades de emprego; aqui, abanamos o rabo como fieis escudeiros do imperialismo, e damos de presente de boas vindas a Amazônia e nossas imensidões naturais. Os rapazotes de lá, apesar de não saberem nada da bandeira que ostentam, muito menos o porquê de ostentá-la, têm muito a ensinar aos rapazotes daqui.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Ed. e Seu Castelo...



Uma história de superação e garra. Filho de um carteiro de Juiz de Fora e de uma professora primária, Edmar Moreira, nosso compatriota, dá-nos o exemplo de como é possível, sim, sair da pobreza e alcançar um lugar ao sol; entretanto, o que falta ao exemplo, é explicar como.

De ex-capitão da polícia militar a corregedor-geral da Câmara, nosso deputado deu asas à imaginação e pôs em prática o sonho infantil, comum a muitas crianças, de um dia morar em um castelo.

Nosso simpático vitorioso usa o patrimônio exótico, avaliado em mais de 20 milhões de reais, como casa de campo, para relaxar aos finais de semana.

E relaxar não é difícil, pois a construção tem 32 suítes; uma cozinha industrial capaz de atender 200 pessoas; dois elevadores; sistema de aquecimento central; uma capela; um anexo de lazer, com sauna, salão de jogos e de ginástica; e como, é claro, não poderia faltar na moradia de um bom vivant, uma adega climatizada com capacidade para 8.000 garrafas.

Esses casos todos servem para elucidar o quão injusto é o povo; o que é uma lixeira de 2.000 reais se comparada a toda a exorbitância desse mais novo empreendimento brasileiro, de causar inveja aos europeus? Não podemos ser injustos! Temos que nos contentar com nossos pequenos ladrõezinhos – melhor dizendo – infratores, pois, agora, vai dizer, uma lixeira de 4,81 salários mínimos não é de se causar tanto espanto assim – sejamos sinceros. Temos que tratar bem nossos pequenos transgressores, ou se não - ai ai ai ai - o Ed. mau vai gastar todo o dinheiro do INSS!

Agora, quando a pessoa tem vocação para os negócios, não tem jeito, tudo parece se acertar como “mágica”. A casinha dos sonhos do nosso príncipe encantado está à venda, e qual é o melhor corretor de imóveis do que a imprensa? Está tudo ao alcance de qualquer um: as fotos da propriedade; área; número de suítes, de quartos, de banheiros ou qualquer outra possível dúvida dos interessados. Não se precisa sair de casa para procurar; a casa do Ed. é que está à procura de alguém para quem se vender. Provavelmente um outro velho decrépito com o orifício entre as nádegas saturado de euros, procurando paz e tranqüilidade depois de uma vida exaustiva. Afinal, o que ele tem haver com essa história?


Toaletes e Guilhotinas

Quando algo não tem nome, se apresenta apenas como uma sensação de mal-estar indefinível. Naomi Wolf, em seu livro 'O mito da beleza', mencionava que certas coisas na sociedade passam despercebidas pois não há quem as denuncie. E a denúncia é sempre uma espécie de grito em meio ao silêncio de uma humanidade acostumada.Um escritor brasileiro, pouco conhecido, tem feito este papel de maneira brilhante, com um bom toque de humor ácido, que o cotidiano merece.

Ezio Flavio Bazzo é um escritor diferente, pois seus livros são encontrados na Internet, feitos de maneira quase artesanal e publicados de forma independente. Não há como traçar um estilo para suas obras, e deve ser esta a razão de não se tocar em seu nome nos centros literários. Cada livro é único, composto de mil estórias e confissões de viagens, mostrando de forma brilhante o ser humano da maneira como ele é. Uma biblioteca dentro de cada livro. Um acervo de milhares de notas de rodapé geniais.

Apesar de parecer triste à primeira leitura, ao se conhecer a obra do escritor, tem-se a idéia de uma forma bela de descrever a vida, reconhecendo a miséria humana e aceitando-a como parte do aprendizado, para quem tem a percepção da realidade.

Os livros são como uma espécie de literatura livre, onde não há compromisso com regras gramaticais, formalidades ou mesmo com o leitor. Há apenas a vontade de escrever. Portanto, aquele que leu apenas um livro de Ezio Flavio Bazzo não sabe o que são seus livros. E muita gente não continua a ler, pois vê a si próprio neles.

Desde 'Ecce Bestia', que trata do assunto muito bem camuflado pela sociedade que é a exploração de animais para o sexo, mais comum do que se imagina, ou se quer imaginar. Ou 'A lógica dos devassos', que provoca a discussão sobre a pedofilia, um problema cercado de preconceitos entre os próprios pesquisadores do assunto. Ou 'Manifesto aberto à estupidez humana', espelho fiel da humanidade e do homem, um dos melhores livros que já li na minha vida.

A relação que temos com os escritores sempre é envolta em mistério, pois não conhecemos o autor das palavras que lemos. Muitos escritores estão mortos ou simplesmente moram do outro lado do planeta e nem sempre apreciam dialogar com os leitores. O máximo que acontece é o lamentável show de autógrafos. Mas este escritor é vivo. Tem um endereço de e-mail, responde aos leitores. Envia textos inéditos, manda presentes (livros!), está mais próximo do leitor e nos mostra, através deste comportamento, uma forma de ser muito bonita e diferente do aparente pessimismo que muitos vêem em seus livros.

Pois o livro 'Toaletes e Guilhotinas' fala de dois assuntos aparentemente divergentes, mas que têm muito em comum: a merda e a guilhotina. Além de um humor muito interessante, sobre a forma como lidamos com os excrementos, há a denúncia de que a humanidade possui em algum lugar de seus genes ou de sua psique um espírito sanguinário, que se empenha em construir mecanismos cada vez mais sofisticados para provocar o sofrimento alheio.

Sobre os animais, Bazzo escreve: "é desse fígado adulterado e canceroso que o patê (Foie Gras - em português: fígado gordo) da burguesia é feito. Oxalá lhe provoque pelo menos uma cirrose incurável ou uma Hepatite para vingar o martírio dos gansos. Quem visita uma dessas granjas fica impressionado com o desespero dos animais, que passam praticamente a vida toda sem sentir o gosto da comida. _ E os ecologistas? Perguntei-lhe. _ Não fazem nada. Pois o Foie Gras é para a França quase uma questão de Estado! O mesmo que o petróleo para os árabes e que o ópio para os birmaneses. A mim, esta pasta nojenta só revolta as tripas!".

Sobre as execuções na guilhotina e a comparação com a morte de porcos, ele diz: "quem nasceu e cresceu no campo nem precisa ter boa memória para lembrar das execuções matinais, semanais e rigorosamente macabras. Os gritos de desespero do animal, um panelão com água fervente, o verdugo afiando a faca e três ou quatro vizinhos tomando chimarrão, fumando charuto ou simplesmente assistindo a execução. Fazendo um retrospecto desses tempos e desses porcocídios me dou conta de que o matador nunca é uma pessoa comum e que existem sujeitos que 'sabem mais' do que os outros no métier da morte. Lembro-me perfeitamente bem das mãos grotescas do homem que enfiava a lâmina na direção do coração dos porcos, e que eu estava sempre do lado dos suínos, torcendo para que eles, num último ataque de desespero, conseguissem devorar a mão ou pelo menos o joelho dos matadores.

Depois, assistia a carnificina e a retirada do coração mutilado, que o carniceiro exibia orgulhoso à 'platéia', exatamente como os verdugos faziam aqui, com a cabeça dos guilhotinados. Portanto, e por mais lírico que possa parecer, estou profundamente convicto de que uma civilização e uma sociedade que é contra a pena de morte para os homens, mas que segue matando todas as outras espécies para se alimentar, para vender seus chifres, seus dentes, sua pele, sua banha, seus hormônios etc, é uma civilização e uma sociedade, narcisista, chauvinista e hipócrita que, cedo ou tarde (mais cedo do que tarde), destroçará e comerá a si própria".

E sobre a curiosa imagem de um livro de Jerry Rubin, que traz entre outras fotos a de uma mulher nua carregando uma cabeça de porco numa baixela: "vou me dando conta de como é impressionante o estágio de indiferença em que nos encontramos. Como é possível viver no meio de uma chacina e de um genocídio animal desses sem desesperar-se? Frangos, porcos, vacas, peixes, patos, rãs, camarões, coelhos, faisões, ovelhas, nenhuma espécie escapa à fome sanguinária dos homens, desses barrigudos inúteis que saem dos restaurantes de Montmartre palitando os dentes e arrotando".

O comentário sobre uma gravura onde aparece um homem matando outro homem com um machado, e um homem com um cavalo observando a cena: "gosto dessa imagem, porque nela o ponto crucial de crueldade não está na lâmina do machado, nem nos lábios do homem que pratica a violência, mas curiosamente no olho do cavalo, dirigido de maneira ambivalente e fulminante para o sujeito que está prestes a ser assassinado. Esse eqüino estaria indignado ou apenas gozando com o massacre* e com a ruína de seu dono? O que impressiona realmente, é a rapidez com que se passou do machado à guilhotina e desta à cadeira elétrica, fato que evidencia o quanto o espírito assassino está incrustado nos séculos, nos punhos e no palavreado da espécie mais predadora que o planeta já teve notícias.

* Etimologicamente a palavra massacre vem do latim, macecre, um termo que está sempre ligado aos açougues e às carnifininas".

Por Ellen Augusta Valer de Freitas

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Sobre a autora

Ellen Augusta Valer de Freitas é licenciada em Biologia, com formação pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos - Unisinos, São Leopoldo, RS. Foi bolsista de Iniciação Científica pelo CNPq no Instituto Anchietano de Pesquisas da Unisinos. Tem experiência na área de Ecologia com ênfase em Zooarqueologia, atuando principalmente em captação de recursos aquáticos, gerenciamento de recursos hídricos, estudo da alimentação de povos indígenas, educação e pesquisa em arqueofauna em sítios arqueológicos do Projeto Corumbá, no Pantanal. Trabalha com educação de jovens e adultos, realiza pesquisa de mercado e consumo para uma ONG nacional, publica artigos regularmente, elabora projetos, palestras sobre nutrição, ética e animais, e aulas de botânica e paisagismo. Tem 30 anos, é vegana e ativista pelos direitos animais, com participação em diversos grupos no RS

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Epopeia de Um Errante

Nasci nesse mundo, eu e mais cinco irmãos. Durante meus primeiros meses de vida conheci aquilo que aqui chamam de amor. Um amor incondicional, amor materno, amor que dá a carne pela vida do outro. Aprendi a ser assim desde pequeno: sempre preferir morrer a matar, sofrer a machucar ou deixar que machuquem meus entes queridos.

Quando fiquei mais velho, descobri que a vida tinha mais a oferecer do que eu conhecia no ninho materno: um nicho de carinho e segurança. Inicialmente, fiquei inseguro quanto a qual caminho tomaria na vida, pois sempre quis estar ao lado de quem amo: minha mãe e meus irmãos.

Meu pai não conheci, diz minha mãe, era alguém aventureiro que vagava pelo mundo, lépido e sempre disposto a fazer novas amizades, mas , no fundo, escondia mágoas de alguém solitário em busca de um carinho especial e amor verdadeiro. Por ser assim tão carrancudo, fez de minha mãe apenas mais uma, mas não era de todo mau coração.

Dias atrás, já sonhava eu em seguir os passos do meu pai. Quem sabe um dia encontrá-lo pelas esquinas da vida e trocarmos ensinamentos. Minha mãe advertiu-me que o mundo fora dali não era tão belo como muitos pintavam, tampouco harmonioso, sincero e solidário. Então, eu com meus botões, fiquei a matutar de onde vinham aqueles ensinamentos tão brandos e profundos que minha mãe discursava aos ouvidos meus e de meus irmãos, se não existia mundo tão belo assim?

Um belo dia, não tão belo assim, minha mãe, com lágrimas nos olhos, disse que teria que nos deixar. Sem entender, meus irmãos e eu, colocamo-nos a instigá-la sobre essa atitude; cabisbaixa e com voz trêmula ela balbuciou:

-Meus filhos lindos, não quero que pensem mal de mim, mas as regras do jogo não sou eu quem dou. Este mundo é perverso e repleto de pessoas que são preconceituosas ao nosso respeito...Um de meus irmãos, o mais tímido, apelidado por nós, carinhosamente, de “Patinho Feio”, retrucou:

-Mamãe, é por causa de nossa cor? Antes mesmo que ela pudesse responder, ele almejou-a com uma nova pergunta:

-Porque vivemos na rua?

Meu irmãozinho não conteve as lágrimas e pôs-se a chorar em coro com minha mãe.

A esta altura da história, minha garganta começou a secar; senti como se o fogo consumisse minha laringe; não me contendo, também entreguei-me ao pranto.

Minha mãe, vendo aquela cena horrenda, revelava em seu semblante o horror da calamidade que ali se abatia.

-Meus filhos, sei que são jovens para entender, mas um dia, quem sabe, me perdoem por isso. Juntos somos frágeis, vulneráveis aos terrores que assolam esse mundo. Desprotejo vocês para sua própria proteção.

Eu, que era o mais velho - dada a circunstância da ordem de nascimento - tomei frente àquela situação, e o que minha pouca idade não revelava, nem a mim mesmo, naquele momento espalhou-se ao vento como brisa de verão:

-Mamãe precisa partir, e nós sabemos o quanto ela fez por nós, se no momento não entendemos sua atitude, no futuro a entenderemos. Não vamos fazer desse momento pior.

Minha mãe olhou-me com aquele peculiar olhar de mãe coruja, orgulhosa de ver as vitórias de seu pequeno filho prodígio. Mas o instante, apesar de eterno, acabou-se logo; daquele jardim suntuoso que florescia entre nós, fomos remetidos à tragédia consumada: a despedida.

Carinhos e afagos demorados não faltaram; todos queriam uma vez mais, sentir o doce e familiar cheiro de mãe, como se quiséssemos guardar conosco para eternidade o que de mais valioso foi-nos dado: nossa mãe. O amor verdadeiro.

Ao longe, os passos lentos dela foram se perdendo. Quando as retinas atentas e pescoços esticados já não podiam delinear a silhueta daquela por quem nossas lágrimas escorriam, a tristeza tomou conta de nossos corações; fomos tomados por uma sensação inexplicável de incredulidade.

Daquele momento em diante senti como se já não mais fosse completo, como se uma parte vital de mim tivesse sido jogada a esmo, a vagar pelo mundo.

O tempo passou; os sentimentos não. Contudo, eu e meus irmãos, com a idéia amadurecida de continuar a vida, decidimos também separarmo-nos e seguirmos a vida, como aconselhou nossa mãe.

Tanto eu como eles sabíamos exatamente o que procurávamos: queríamos reencontrar a parte que nos faltava. E assim fomos, cada um no sentido de um vento, para, quem sabe, um dia, com vidas restituídas, pudéssemos juntos comemorar vitórias.

Infelizmente esses sonhos de desbravadores inexperientes não se concretizaram; aos poucos entendi o que minha mãe quis dizer com mundo cruel.

Nas ruas de uma grande cidade, pus-me a caminhar em busca de alguém para proteger, e que, em troca, desse-me amor. Infinidades de rostos encontrei, todos com feições sofridas, homens e mulheres não amados, tão secos que pareciam serem feitos de pedra. Tentei deles aproximar-me para amá-los, e, quem sabe, curar as feridas que a vida os fez. Mas foi em vão, a falta de amor dessas “pessoas” parece tê-las feito mal, em lugar do amor, cobriram o espaço vazio com ódio.

Sou persistente, minha raça me fez assim: forte, lutador, destemido. Entretanto, o ódio desse mundo é infindo, parece brotar do concreto. A solidão é dividida em grandes muralhas muradas, cercadas, que protegem uns dos outros. Olhando daqui de baixo, vejo irmãos, ou meio irmãos, sejam o que for, são muito parecidos entre si, mas quando se cruzam, fingem não se ver. Não me admira nada que a mim sobre apenas o descaso. Se não amam a si próprios - seres que se dizem superiores aos outros por serem de “raça pura”, seres intelectualizados, sábios, responsáveis por tudo que há de melhor no mundo - o que restará a mim e aos meus irmãos, seres da raça inferior? Sou desconhecedor de teorias nazi-fascistas e sistemas escravocratas , mas sei muito bem, que em épocas remotas - nem tão remotas assim - uns eram considerados lixo e outros ouro, e que ainda hoje existe resquícios dessas linhas de pensamento . Com certeza eu não sei exatamente o que aconteceu, mas ainda sinto no meu couro as conseqüências dessa segregação. Não guardo ressentimento, queria apenas que tudo voltasse a ser como era em um lugar que, se não me engano, é chamado Éden; lá, todos viviam em paz e amor, exatamente como no ninho da minha mãe. Lá não existia raça, todos eram iguais.

Mas o tempo é inabalável e continua a passar. A tecnologia de que tanto falam, fez-me saber que eternizou a mais alguém: meu irmão do meio faleceu em mais um trágico acidente de carro. Um senhor de meia idade, aparentando seus 20 anos, corria muito, acredito eu que devia ser uma emergência, pois ao ver meu irmãozinho, distraidamente atravessando a rua, não pode parar, nem ao menos para prestar socorro ao coitadinho que, segundo testemunhas, sofreu muito até ser socorrido pelos longos braços da morte.

Não pensem vocês que não sofri. Sofri e sofro muito, mas eu entendo o mecanismo da vida. Uns morrem para outros sobreviverem. É assim. Fazer o quê? O que eu e minha raça podemos fazer?

A tragédia, não sei eu onde termina nesse mundo, sei, apenas, onde terminou para mim. Em um belo dia, belo mesmo, estava eu com fome, frio, dor e exausto quando vi ao longe duas pessoas que pareciam ter sorrisos nos rostos. Corri em direção a elas. Deparei-me com dois jovens que realmente sorriam muito. Na hora fiquei extremamente comovido com o achado: pessoas com amor no coração, pensei eu.

Fiz o que havia ensaiado a vida toda, um ritual complexo de demonstração de carinho e agrado. Funcionou, levaram-me para um lugar mais calmo, onde eu acreditava que me dariam de comer, pois estava faminto; mas também, se não dessem, o mais importante eu havia encontrado: a amizade.

No início achei que estavam se divertindo mais do que eu, pois riam entre si. Achei melhor não importunar, de repente poderiam estar achando-me engraçado.

Mais tarde um pouco, enquanto eles preparavam alguma coisa - que eu acreditava ser algo de comer - comecei a sentir que algo não estava totalmente certo. Quando aprontaram o que faziam, começaram a se aproximar, senti em seus olhos um olhar diferente daquele de outrora, parecia intricado, até, quem sabe, sádico... A brincadeira perdeu a graça para mim, quando senti em meu corpo o fogo lacerar minha alma, corroer minha vida aos poucos. O cheiro da gasolina queimando sobre meus pelos, fritando minha carne sufocava minha respiração. Enquanto as labaredas arrancavam minha pele, contraíam meus músculos que tremiam frenética e involuntariamente, fui perdendo a noção de tempo e de espaço. Não posso dizer se meus latidos eram tão altos de dor, medo ou tristeza. Não foi pouco tempo, mas também não durou uma eternidade. A dor aos poucos deu espaço ao cansaço, fui deitando-me aos pés daqueles que foram meus carrascos. Não sentia raiva deles, afinal eram seres inferiores, incapazes de saber o que se passa dentro de um coração de verdade. Todavia, ficava em meu peito a incompreensão: o que leva alguém a agir assim? O que esse planeta tem de tão atrasado que faz de seus habitantes instrumentos de destruição e tortura? Que culpa meus irmãos e eu tínhamos de existir vagando nas ruas corações traídos, maltratados e humilhados? Será que fomos nós os responsáveis por essa vida injusta que habita esses corações negros? Será que não foram vocês mesmos que plantaram essa semente de dor e insegurança em seus corações? Será que à noite, quando sua filha linda, perfumada e bem arrumada sai para se divertir, aquele pensamento renitente que soa como mal agouro o tempo todo ao seu ouvido, não é o reflexo daquilo que você cultiva durante o dia? Não será medo de que o universo cobre pelo descaso dado por você ao que está à sua volta?

Eu não estou mais aí, não pude realizar o sonho da minha mãe: conquistar o mundo. Mas agora eu sei o que ela quis dizer. Eu entendi ao que ela se referia quando dizia “mundo mau”. Esse é um ambiente dominado pelos animais: seres irracionais que vivem vidas mortas, os quais têm medo uns dos outros, temem a morte, pois sabem que matar está em seu sangue, sangrar está em seu destino. Meus irmãos e eu não tínhamos medo porque não conhecíamos as trevas. Agora eu sei, acredito que meus irmãos também, a grande maioria deles pelo menos. Sei que apesar de uma vida curta, vivi e morri sem mágoas, sem arrependimentos. Não pude fazer bem a ninguém, pois não deixaram; mas também não fiz mal. Àqueles que me fizeram sangrar, deixo meu perdão e estimas de evolução; todos merecem uma segunda chance. Àqueles que na rua seguiram sem a mim notar, desejo-lhes sorte, vão precisar; esse mundo é trágico. Se não conheceram minha história, a conhecerão em outros corpos, senão de um Canis familiaris, a presenciarão em corpos de, quem sabe, entes próximos, muito próximos. O mundo é comum a todos, suas atribuições também. O que acontece a um, pode acontecer a todos. Não desejo tristeza a ninguém, mas me ensinaram que não se deve jamais interferir em um ciclo biológico. O homem está na teia alimentar do homem. No genoma humano está inscrito a morte, tristeza e muita dor.

Eu estou livre das algemas desse mundo, mas meus irmãos não. Ainda têm muitos deles soltos, abandonados; pobres guesas, andarilhos em busca de amor e carinho. Se tiverem racionalidade ainda, por favor cuidem dos meus irmãos. Somos fracos. Nossas patas não foram feitas para matar. Não sabemos nos defender. Não acreditamos em defesa, pois não conhecemos o ataque. Vivemos nossas vidas com um único objetivo: o de poder um dia tornar mais viva a vida de alguém que ama viver tanto quanto nós.

O Fim da Noite

A noite abraça-me fria na calada da alta madrugada. Estou só, a lua é minha confidente. O infinito parece a cada instante mais próximo das minhas mãos. Meus sonhos, meus temores e incertezas afogam minha alma; sufocam meus gritos.
Esse duelo noturno acompanha-me até o amanhecer; não tenho sono, não tenho insônia. Estou sóbrio, embriagado de tédio e angústias indefinidas. Quando o sol pedir licença, retirar-me-ei deste palco; esperarei novamente meu ato.
A vida é uma tristeza quase absoluta; rotinas cíclicas, infinitas. Trabalhos intermináveis.
Todas as manhãs, milhões de seres, em marcha fúnebre, dirigem-se às paradas dessas grandes cidades. Aglomeram-se, atrolham-se em pequenos espaços. Sono nos rostos, tristeza nos pensamentos. Qual o objetivo disso? Onde isso levará? Que fim encontraremos para além dessa vida? Semanas inteiras passadas em branco à espera do fim de semana. Não é o tempo que estamos matando, é a nossa vida que está morrendo.
Não vislumbramos os jardins, tampouco nossos parentes. Pensamentos a mil, vidas a dez. Estamos destinados a envelhecer,e, a beira da morte, compreender que tudo aquilo que passamos, passamos em vão. Será tarde, o tempo é imutável, o fim não. Viver o agora, é mais do que viver o presente, é garantir vida no futuro.
E mais uma vez o sol expulsa-me. Voltarei ao meu ciclo noturno e esquecerei dos sentimentos sentidos quando não estava em posse de minha razão.

Onde Acaba O Que Começa

Existe um mundo dentro de mim. Existem pensamentos ao meu redor. Existe um enorme buraco sobre minha cabeça. Existe uma solidão em que o silêncio sufoca meus tímpanos e cega minhas narinas. Existe um barulho insuportável vindo de dentro do meu peito; é a angústia que explode para fora dos meus poros; é o medo que apavora minha coragem.
Sinto-me cada vez mais feliz por estar tão distante da realidade e cada vez mais próximo da tristeza, dos prantos da madrugada.
Tenho medo quando a noite chega, pois com ela a solidão. Tenho medo quando ando só abaixo da lua. Adoro a euforia da morte; suplico o cheiro das flores sobre meu corpo.
Não existe mais um conjunto, existe uma única parte do quebra-cabeça. Quero voar para apagar o fogo do meu coração. A liberdade me espera por de trás das grades que me aprisionam.
Posso correr, posso flutuar no mar; agora estou só, não existe mais o impossível. Meus olhos só vêem o que minha mente traça. Meu caminho é longo, meus passos também. A morte não existe, é a vida que acaba.
Meus olhos sangram, meu sangue fervilha, minha vida é eterna, minha morte me acompanha.
Quero a insanidade sempre ao meu lado; minha melhor amiga, a única que me entende. Quero música urgente nos meus ouvidos. O som me maltrata, não quero sofrer. Sou sarcástico,
masoquista. Sua face me causa ira; ótimo! Adoro pecar. Quero ver-te em flores mortas.
Não penso, não reflito, sou apenas um instrumento da sociedade, aprendi a repetir estrofes, refrões de músicas e poesias que de beleza somente o poder de manterem olhos e ouvidos atentos à espera de uma palavra de sabedoria.
Sou triste, sou alegre, sou sábio, sou tudo, sou nada. Neste momento, em que me encontro comigo mesmo, não encontro nada. Nesta hora, em que só existe o não existir, minhas mágoas não têm fim, e meu fim não sei quando começou. Quero viver aqui dentro, dentro de mim. Colocar flores amarelas nos vasos e perfume nas paredes. A cortina negra que cobre minha alma quando eu não estou é espessa, não quero tirá-la; ela impede que a luz de fora ofusque meus olhos ao ver quem realmente sou.
Meus pensamentos ludibriam minha paciência. Sinto-me melhor em agora saber que sou feliz; minha infelicidade compõem meu talento de ser alegre. Minha melancolia conforta meu ego. Preciso de mim, preciso de todos, mas principalmente não preciso de ninguém para ser quem eu sou.

O Retrato Avesso de Um Ser

Em momentos assim que sinto meu corpo flamejar, minha mente entorpecer-se de ódio; um rancor inexplicável que faz um sangue espumante ser expelido em forma dos mais variados impropérios ao mundo.
Quero matar, não posso controlar. Meus punhos suplicam sangue; minha consciência quer sentir-se culpada por algum crime hediondo cometido em momentos de descontrole psicológico.
Sou pesado, não consigo respirar. As paredes sufocam meus sentimentos. O som que estridente brota dos alto-falantes apontados para meus ouvidos ensurdece-me; esconde meus instintos; camufla meus gritos.
O satanismo inexistente existe; cultuo o morto e o assassino. Sou o carrasco do meu próprio ser; executo e sou executado.
A navalha penetra na carne e derrama o sangue que é o combustível de um corpo sedento; de um ser noturno que vaga soturno pelos locais mais insalubres da noite.
Aqueles pensamentos lúgubres envolvem meu ser. A essência mórbida do ar que desliza do cemitério até minha face percorre um longo caminho até chegar ao fundo do meu coração e ali plantar a semente do eterno.
Aos poucos aqueles sentimentos vão esvaindo-se, tão lentos e graduais como surgiram. Tão sensíveis como o impacto que causaram.
Daqueles momentos de devaneios insanos, o que resta são as lembranças vertiginosas de uma viajem ao desconhecido, o conhecimento do interior negro que habita meu âmago.
Sou a jaula de um demônio incontrolável; o béquer de uma substância instável e destrutiva. Meu corpo é a prisão do criminoso mais pecaminoso que a humanidade conheceria; o tirano mais inescrupuloso, cuja ira submeteria a nação à desumanidade completa.
A humanidade é assim composta de elementos visivelmente idôneos, mas que na verdade não passam de mais um complemento da real natureza primata e selvagem dos homens: únicos seres pertencentes ao meio terráqueo que premeditam os mais capciosos crimes, seja contra a pureza da natureza, seja contra a podridão de si próprios.
Um retrato de um ser ao avesso, que acima de tudo é humano: a pior de todas as aberrações que vaga pelos espólios desse universo.